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O GAITEIRO - UMA HISTÓRIA DE OBRA

  • Foto do escritor: Nei Damo
    Nei Damo
  • 15 de nov. de 2020
  • 5 min de leitura

Nosso personagem, real, nasceu Nelson, mas é chamado e tratado por “Nerso”, no linguajar interiorano e caboclo de algumas regiões do Brasil.

Na região do Nerso, trocam o lh pelo i, como por exemplo, em palha por paia, entulhar por entuiar e, telha por teia. Entre várias outras coisas deste modo de falar, também comem o eme e o esse no final de algumas palavras.

Nelson, ou Nerso, nasceu entre gente que vivia na roça, mas esperto e visionário à sua maneira, escapuliu logo que pôde para uma cidade vizinha, empregando-se numa pedreira com um pequeno britador. Interessado por tudo, quis aprender, e aprendeu, a trabalhar com explosivos e cordel detonante, depois do susto ao assistir à explosão de um desmonte de rocha.

— O fogo, Home, corre aqui dentro deste "prástico" oito quilômetro em um segundo!

Depois de um tempo e, sempre progredindo, que até ganhou um celular da empresa, quis fazer um experimento exagerando no carregamento dos explosivos num desmonte de rocha na pedreira. Ao dar a volta e subir para apreciar o resultado, olhou para uma olaria vizinha da pedreira, a uns cento e cinquenta metros de distância. O telhado estava todo furado. Muito apavorado e nervoso, ligou para o chefe.

— Home! As teia! As teia!

— Nelson! Não entendi. O que é teia?

— Home! As teia! As ternite! As ternite!

Aí o chefe entendeu: no desmonte, fragmentos de rocha que voaram na explosão na pedreira furaram as telhas Eternit da olaria.

— Nelson! Fique calmo, vá na olaria, veja se está tudo bem com o pessoal, mande comprar as telhas e bote gente a consertar o telhado.

Na vida pessoal, não levava desfeita para casa e, se fosse provocado, entrava em qualquer entrevero sem medo, no soco, no porrete ou no facão, e neste, se dizia especialista.

— Furar ou cortar, só em "úrtimo" recurso.

Certamente o Nerso não leu O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo, mas se tivesse lido, iria gostar do Capitão Rodrigo Cambará, que tinha o costume de assim se apresentar: Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!

Na empresa, o Nelson foi galgando posições até chegar a encarregado de britagem, passando pela limpeza, painel de controle, operação e manutenção. O tempo foi passando e a empresa resolveu produzir areia de brita em sua instalação de britagem. Sendo um produto mais sofisticado, que exigia controles granulométricos, o Nelson se enfiou no laboratório. Em pouco tempo estava peneirando, pesando, calculando e desenhando a curva granulométrica dentro da faixa especificada.

Resultou o Nelson num profissional melhor que o laboratorista, pois que se a curva saía da faixa, ele sabia o que fazer na britagem de modo a corrigir o problema.

Seguindo com os planos de expansão da empresa, de colocar uma instalação de britagem em outra cidade, se efetuou a compra do equipamento. Por um acaso, surgiu um empresário interessado no aluguel da instalação para um parque eólico, necessária para produzir material para o concreto das bases das altas torres com suas hélices.

Acertado o preço do aluguel e, tendo o empresário conhecido o Nelson, ficou acertado que o encarregado iria junto, para operar a instalação. E assim aconteceu, com um engenheiro da empresa locadora passando no parque eólico uma vez por mês para o acompanhamento dos serviços.

Nunca tendo saído dos arredores de onde tinha nascido, em cada visita mensal do engenheiro havia sempre uma surpresa nos relatos do Nelson, em sua nova vivência.

— Mas Home! Aqui tá muito bom. Sabe que os restaurante só cobra o que tu come? E Home, o que tem de comida "deferente"!

— O seu Antônio falou que, se tudo correr bem neste mês, ele me dá dois dias pra mim conhecer o mar.

— Home! Me assustei com aquele marzão véio! A gente via na televisão, mas de perto é outra coisa! E é salgado mesmo!

— Home! Tô gostando muito daqui. O "Dirso" (Dilson), o operador da carregadeira, toca um violão coisa "meió" do mundo. Acho que vou trazer minha gaita.

Já na visita seguinte, o Nelson comunicou:

— Eu e o Dirso fizemo uma dupla: Nerso e Dirso. Que "tar"?

O parque eólico era ao lado de uma pequena cidade e, para o alojamento fora alugado uma velha construção abandonada de madeira, arrodeada por umas cinco a seis casas distantes umas das outras. Este conjunto estava a uns cinco quilômetros do parque e, tudo levava a crer que tinha sido um início de povoamento que não progrediu.

Quanto ao alojamento, não precisava ser um expert para se concluir o que fora aquilo. Um salão grande, um balcão num canto, um corredor com quartos dos dois lados e dois banheiros nos fundos. Num pequeno anexo, uma cozinha com despensa.

Aquilo tinha sido um puteiro.

O engenheiro que fazia as visitas retornou à obra dois meses depois da vinda da gaita do Nelson.

Na reunião mensal entre os engenheiros e a direção da empresa, após uma exposição sobre o andamento das obras do parque eólico, o engenheiro pediu licença para contar um fato ocorrido fora da obra, envolvendo o Nelson.

"Como vocês sabem, eu tenho passado na obra do parque quase que mensalmente e, em situações sociais, tenho contado coisas engraçadas do nosso encarregado de britagem, o Nelson. Conto agora aqui pelo inusitado do acontecimento e, conto como me foi relatado pelo Nelson. Tive o cuidado de verificar a história depois, com outros companheiros.

Há uns dois meses atrás, o Nelson levou sua gaita para a obra, porque lá encontrou um companheiro de cantoria, operador de escavadeira, o Dilson, que tocava violão.

Todos os dias depois do jantar, os dois pegavam dos seus instrumentos e foram se aperfeiçoando no negócio, inclusive aumentando o repertório.

A dupla Nerso e Dirso estava ficando boa e foram convidados a animar um aniversário. Como tiveram sucesso, arriscaram a promover um baile no alojamento – que eles sabiam – o salão era apropriado para isso.

Quando ele me falou desta intenção, eu perguntei:

— Mas Nelson, vai ter gente? Por perto do alojamento tem umas cinco casas...

— Home! O senhor não imagina o que tem de casa "espaiada" por aí!

Enfim, os bailes aconteceram: quarta, quinta e sexta, das 21 horas até meia noite, nas semanas em que eles viajavam de folga para a cidade de origem e, nos sábados, das 23 horas às quatro da manhã, nas semanas em que não viajavam.

Começaram a cobrar ingresso e comercializar bebidas.

No último sábado, no fim do baile, entrou um sujeito conhecido na região, já muito tragueado e sentou ao lado do Nelson. Pediu um copo de cachaça, virou de vez e pediu outro. O Nelson anunciou a última música da noite e, assim se encerrou a história, nas palavras do Nelson, como ele me contou:

— Home! Já "tava" no meio da música, o sujeito toma o último gole e deita a cabeça no meu ombro, como se estivesse dormindo ou desmaiado de bêbado.

Eu não queria parar de tocar porque era a última música e, então deixei a cabeça dele ali, balançando pra cima e pra baixo no meu ombro. Terminado o baile, pedi ajuda para segurar o cara enquanto eu tirava a gaita.

— Home! O cara não tava dormindo! Ele tava morto! "Carcule" o cagaço! Dizem que foi um ataque "furminante" do coração!

— E aí Home, sabe qual é o meu apelido agora lá na obra? O gaiteiro do defunto!"

 
 
 

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